10 de dezembro de 2018

Denúncias contra João de Deus caíram como uma bomba atômica em Abadiânia e em todo o Estado de Goiás

Os goianos foram pegos de surpresas com uma matéria bomba feita por Pedro Bial, do conversa com Bial, levada ao ar na última sexta-feira, 08 de dezembro, com denúncias de abusos sexuais promovidas pelo médium espiritual mais conhecido do mundo, João Teixeira de Faria, o João de Deus, mantenedor da Casa Dom Inácio de Loyola, localizada em Abadiânia, cidade do interior de Goiás, localizada a 90 quilômetros de Goiânia, capital do Estado.

O apresentador do Conversa com Bial, disse a equipe de seu programa ouviu dez mulheres que teriam sido vítimas de abuso sexual pelo médium João de Deus, mas por questões de tempo foram exibidos apenas quatro depoimentos, entre eles, a de duas estrangeiras que teriam auxiliado João de Deus na Casa Dom Inácio de Loyola.

Durante todo o final de semana, os maiores sites, Jornais impressos, emissoras de rádios e de TVs, deram destaques para o caso que caiu como uma bomba atômica em Abadiânia e em todo o Estado de Goiás, que reagiu com muito espanto, haja vista a representatividade religiosa mundialmente que é João de Deus, em referência os seus mais de 10 mil atendimentos mensalmente feitos na Casa Dom Inácio de Loyola.

Mais de 10 mil atendimentos mensalmente são feitos por João de Deus na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, interior de Goiás. Fotos: Reprodução

Até ontem, domingo (10), após a revelação de 10 casos de supostos abusos sexuais promovidos pelo médium João Deus, outros cinco foram denunciados. Já o Jornal Folha de São Paulo, revela que outros 25 novos casos foram denunciados e que a Polícia Civil já havia feitas algumas investigações contra João de Deus, as quais teriam sido arremetidas a Justiça.


Mais casos 

Na manhã de hoje, segunda-feira (10), o Ministério Público do Estado de Goiás concedeu uma entrevista coletiva, onde as autoridades teriam afirmando que casos arquivados por falta de provas, contra João de Deus, podem ser reabertos. Os promotores também afirmaram que as mulheres que desejarem denunciar formalmente o médium não precisarão viajar a Goiás para prestar depoimento. As denúncias podem ser feitas de qualquer lugar do mundo, por meio do e-mail [email protected] Os relatos podem ser colhidos pelos MPs de cada localidade.


Força Tarefa

O Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) realiza uma força-tarefa para ouvir todas as mulheres que afirmaram ter sido abusadas sexualmente pelo médium João Teixeira de Faria, de 76 anos, conhecido como João de Deus, em Abadiânia, município localizado a 90 km de Goiânia. Os abusos, que teriam começado na década de 1980, começaram a ser revelados nesta semana no programa Conversa com Bial,  no Jornal O Globo e neste domingo, mais de 25 mulheres foram ouvidas pelo Fantástico.

De acordo com a Polícia Civil de Goiás, relatos de abuso sexual cometidos pelo médium estão sendo investigados desde outubro deste ano. Com as novas queixas contra o líder espirituala, a apuração ficará concentrada na Delegacia de Investigações Criminais (Deic). O delegado-geral do Estado de Goiás, André Fernandes, afirmou, neste domingo, que todas as denúncias que estão sendo apresentadas deverão ser redirecionadas para a especializada.

A assessoria de comunicação do Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) confirmou, também neste domingo, que as investigações envolvendo o médium acontecem desde o primeiro semestre deste ano. As primeiras denúncias foram registradas pela procuradoria do MP de Abadiânia que, a pedido do órgão, foram encaminhadas para a diretoria Geral da Polícia Civil, que deu início ao inquérito em outubro deste ano.

 

Quem é João de Deus 

Médium João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus. Foto: Reprodução

João Teixeira de Faria (Cachoeira de Goiás, 24 de junho de 1942), no Brasil conhecido como João de Deus ou João de Abadiânia e em outros países como John of God, é um suposto médium curador acusado de charlatanismo. Foi acusado, em dezembro de 2018, de abusar sexualmente mulheres que buscaram ajuda com ele.

Ele atua principalmente na cidade de Abadiânia, no estado de Goiás, mas também realizou excursões internacionais por países como Alemanha, Estados Unidos, Grécia, Suíça, Áustria, Austrália Nova Zelândia, dentre outros.[8] Como John of God, foi apresentado em programas televisivos nesses países desde a década de 2000. Sua notoriedade mundial foi ampliada após a apresentadora e empresária estadunidense Oprah Winfrey participar de cerimônias promovidas por ele em 2012 e apresentá-lo em seus programas.[9][10][2][11]

Para esses atendimentos fundou em 1976 a Casa de Dom Inácio de Loyola (um padre jesuíta morto no ano de 1556, cujo espírito João diz incorporar), onde atende seus consulentes. Destes, cerca de 80% são estrangeiros. Embora não haja cobrança pelos atendimentos, a casa produz o um suposto medicamento denominado “passiflora” e faz a sua venda a preço simbólico e são atendido mais de 1000 pessoas por dia. A Casa de Dom Inácio de Loyola também distribui sopa gratuitamente aos que esperam atendimento e doa o “passiflora” aos que são orientados a fazerem seu uso mas não podem pagar.

João de Deus possui também duas outras instituições de caridade em Abadiânia: a “Casa da Sopa”, onde são servidas refeições gratuitas a pessoas carentes, e a “Casa do Banho”, onde estas pessoas podem tomar banho e têm as suas roupas lavadas.

Dentre os consulentes famosos do médium estão os políticos Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Bill Clinton e Hugo Chávez, o psicoterapeuta Dr. Wayne Dyer, o humorista Chico Anysio, a apresentadora Maria das Graças Meneghel, e os atores Marcos Frota e Shirley MacLaine.

João de Deus afirma que começou a ter mediunidade ativa aos nove anos de idade, quando era um menino católico avesso ao Espiritismo. Diz que aos dezesseis serviu de médium pela primeira na “cura” de outra pessoa. Teria então morado em vários estados, até fixar-se em Abadiânia, onde diz “receber” bons espíritos que realizam curas através dele, incluindo o fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola.

Possui nove filhos com mulheres diferentes. É analfabeto funcional, dono de instituições de caridade, de uma fazenda onde planta soja e cria gado, além de sócio de um garimpo.

As supostas curas proporcionadas pelo médium atraem multidões à pequena cidade, a tal ponto que se constituem na principal fonte de renda do município. A esse respeito o ex-prefeito Itamar Gomes afirmou que “Não sei o que será de Abadiânia quando João de Deus morrer. A economia da cidade vai para o buraco”. A “casa” emprega mais pessoas do que a própria administração municipal.

Na “casa” em que atende os pacientes há paredes ornadas por imagens de santos católicos e do próprio médium, onde pessoas fazem orações e adoração.

De acordo com a biografia oficial John of God: The Brazilian Healer Who’s Touched the Lives of Millions (“João de Deus – O Médium de Cura Brasileiro que Transformou a Vida de Milhões”), de Heather Cumming,[19] até 2007 João de Deus já havia atendido mais de 8 milhões de pessoas em busca de tratamento.[20] Prefaciando o livro, o físico Amit Goswami alega que: “João de Deus é mais do que uma pessoa, é um fenômeno científico de suma importância (…) O Médium João canaliza a memória quântica de outra pessoa que viveu antes dele e já morreu. Na verdade, enquanto João de Deus canaliza, ele transforma abruptamente o seu caráter e passa a irradiar amor incondicional que promove a cura daqueles que precisam dela”.

João de Deus também vem realizando eventos de tratamento espiritual em outros países além do Brasil. A sua história já foi retratada em programas de televisão produzidos por emissoras internacionais como Discovery Channel, American Broadcasting Company, British Broadcasting Corporation, Channel Nine, além da brasileira TV Globo.

Em 2007 a revista Época constatou que o médium exibia uma cópia de um artigo científico em sua casa, usando-o para obter “respaldo científico” às suas atividades paranormais apesar dos resultados inconclusivos apresentados na publicação. Maria Ângela Gollner, uma das coautoras do estudo, declarou à reportagem da revista que se sentia constrangida pelo uso propagandístico do artigo: “Ele fez daquilo uma máquina de propaganda”. O primeiro autor do artigo, o parapsicólogo e psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, afirmou desconhecer o fato.

Em 2012 o médium afirmou que já havia realizado tratamento mediúnico em mais de nove milhões de pessoas.

Em setembro de 2015, apesar de defender a veracidade de suas curas, não quis passar por um “tratamento espiritual” e passou por uma longa e delicada cirurgia convencional no aparelho digestivo, ficando internado no Hospital Sírio-Libanês, um dos mais renomados hospitais do Brasil, por mais de 3 semanas.

 

Oprah Winfrey

Em 2011 a jornalista estadunidense Susan Casey, autora do best-seller A Onda (“The Wave”), falou no talkshow de Oprah Winfrey sobre a boa repercussão da matéria que escreveu na The Magazine, na qual ela investigou os trabalhos de cura espiritual do médium brasileiro.

A bilionária apresentadora foi até Abadiânia em 29 de março de 2012 para entrevistar o médium, por ter tomado conhecimento de sua existência quando entrevistou o psicoterapeuta Wayne Dyer, que afirma ter sido curado de leucemia por ele.

No local Oprah teria meditado, orado e testemunhado as supostas “cirurgias espirituais”, num local chamado “Sala da Entidade”. Dali conheceu a “Casa da Sopa”. Falando aos repórteres, declarou que sentiu “algo muito forte. Foi muito além do que eu esperava”.

Controvérsias

No início do seu trabalho, João de Deus foi alvo de denúncias de exercício ilegal da medicina. No entender do presidente do Conselho Regional de Medicina de Goiás, Sebastião Moreira, “algumas pessoas pensam que saem curadas porque, em verdade, eram portadoras de doenças de origem psicológica”.

Segundo uma matéria da revista Época, além das denúncias de exercício ilegal da medicina, João de Deus também já foi acusado de atentado ao pudor, contrabando de minério e até por assassinato. Em nenhum dos casos, porém, foi julgado culpado.

A acusação de “atentado ao pudor” se deu em setembro de 1980, quando João foi processado por crime de sedução contra uma adolescente, então com 16 anos. O processo foi extinto seis anos depois por desinteresse da família por não conter provas suficientes. O advogado de João, afirmou, à época, que tudo não passou de invenção da família para tentar extorquir dinheiro.

O processo de “contrabando de minério” foi aberto após João ter sido preso, em 5 de novembro de 1985, com 300 kg de autunita, minério com alto teor de urânio. Os três advogados contratados para defender João afirmam que ele foi enganado: desconheceria que o material era radioativo e que estaria apenas transportando o minério até um campo de pouso.

A acusação de assassinato, envolvia a morte do taxista Delvanir Cardoso Fonseca, assassinado com um tiro nas costas no dia 27 de janeiro de 1980, em Anápolis (GO). Segundo Sebastiana Geralda Costa, amiga de Fonseca, João teria ameaçado matar o motorista. O motivo seria um caso amoroso entre Fonseca e Tereza Cordeiro de Faria, ex-mulher de João. A ameaça teria sido feita dois meses antes do crime, segundo Sebastiana. Dois dias após o assassinato, João e Tereza se separaram.

 

Relatos de Abusos Sexuais

Em dezembro de 2018, ele foi acusado de abusar sexualmente mulheres que buscaram ajuda com ele. De acordo com os relatos, João de Deus agia de forma similar em todos os casos. Durante os atendimentos espirituais coletivos, o médium disse para as mulheres que, segundo a entidade, elas deveriam procurá-lo posteriormente em sua sala, porque tinham sido escolhidas para receber a cura. As entrevistadas dizem que, uma vez que elas estavam sozinhas com ele, eram violentadas sexualmente.

Os primeiros 10 relatos foram divulgados pelo programa Conversa com Bial, da Rede Globo, no dia 07 de dezembro de 2018. No dia seguinte, o O Globo divulgou mais 3 relatos, e o Jornal Nacional mais 2, totalizando 15 casos.

Ao saber dos relatos, a Federação Espírita Brasileira (FEB) divulgou uma nota em que afirma que serviços espirituais não devem acontecer isoladamente, com a presença somente do médium e da pessoa assistida. “O Espiritismo orienta que o serviço espiritual não deve ocorrer isoladamente, apenas com a presença do médium e da pessoa assistida. Não recomenda, portanto, a atividade de médiuns que atuem em trabalho individual, por conta própria. Estes não estão vinculados ao Movimento Espírita, nem seguindo sua orientação”, disse a nota.